Falar sobre contratransferência só é possível se, inicialmente, nos enveredarmos pelos caminhos da transferência; afinal, normalmente aquela só existe em decorrência desta. Por isso, iremos falar brevemente sobre o
1) O QUE É A TRANSFERÊNCIA?
Transferência, ou “amor de transferência”, é um fenômeno que ocorre quando o paciente deposita em seu analista os seus sentimentos, sejam eles bons ou ruins. Um exemplo simples é quando uma paciente se apaixona por seu terapeuta, ou quando lhe dirige um ódio tão vigoroso sem motivo aparente algum.
Nesses casos, vale ressaltar, os sentimentos do paciente não são endereçados diretamente para a figura do analista, mas para a imagem inconsciente que ele lhe representa. Ou seja, nos exemplos anteriores, o amor ou ódio não seria diretamente ao terapeuta, mas — por exemplo — a uma figura paterna que ele pode representar naquele momento.
Vale ressaltar que, segundo Freud, é normal que esse fenômeno aconteça e, aliás, é benéfico para a psicoterapia. Isso porque, no momento em que ocorre a transferência, o paciente revive seus afetos, acontecendo a catarse.
2) E, ENTÃO, O QUE É A CONTRATRANSFERÊNCIA?
De acordo com Laplanche (2001), trata-se do “conjunto de reações inconscientes do analista à pessoa do analisando e, mais particularmente, à transferência deste”. Isto é, a contratransferência ocorre quando o terapeuta responde à transferência do paciente.
Retomemos nossos exemplos acima descritos. Agora, além da paciente se apaixonar pelo seu terapeuta, o inverso também ocorre. O analista se declara de amores por sua analisanda e os dois começam a viver as mais belas — ou tórridas — fantasias de amor. Ou então, ao receber o ódio da sua paciente, o terapeuta revida-lhe com algumas bofetadas e palavras de baixo calão.
A contratransferência, então, ao contrário da transferência, não é bem-vinda na relação terapêutica e pode, inclusive, daná-la completamente.
Mas, por que ela ocorre? Contardo Calligaris, em seu livro “Cartas a um jovem terapeuta” (que também já falamos em outro texto), levanta algumas hipóteses. Primeiro, o terapeuta pode fazer isso para celebrar seu poder sobre a paciente. Outra conjectura é que o terapeuta está precisando recorrer ele mesmo à psicoterapia (principalmente em casos recorrentes de contratransferência). Por fim, pode se tratar apenas de manifestações sentimentais verdadeiras e sinceras.

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